Retrato


Não há nessa vida quem não se canse de viver sem ter razão. Como também, não há quem resista viver somente do ócio. Tudo à nossa volta faz parte de um conjunto ao qual não lhe damos a devida importância. Não olhamos a flor, o capim, o espinho da flor, a abelha que beija essa flor, o bem-te-vi que anuncia quem chega. Enfim, nunca olhamos para a nossa vida da forma que o deveríamos.

O tempo nos revela modos diferentes de conviver, de externar nossos gostos, nossos medos, nosso projetos, nossa personalidade e nada nos aproxima da verdadeira realidade do viver absoluto. Tudo isso por conta dos novos jeitos de ser, de falar, de brincar, de pensar e de se expressar. Nesse contexto, surgem perguntas simples que são cabais em nossa existência, tais como: minha família, como será no futuro? Que tipo de relação terei com meus vizinhos? Os meus filhos terão vez e voz? Ainda terei uma árvore para sentar à fresca num dia de calor? Terei água para beber sempre?

Todas essas perguntas nos parecem obsoletas, mas todas elas convergem para um futuro que estamos plantando com adubo forte, que cresce a passos largos sem nos permitir ter ou perceber expectativas. Nas adversidades culpamos “o sistema”. Mas quem faz o sistema? Nós!

Não estaríamos “chovendo no molhado” a vida inteira? Planejando e executando ações que só restringirão a nossa existência? Todos os dias nós reclamamos de uma coisa nova. Ontem reclamávamos da falta de chuva, do gado morrendo de fome, dos nossos bolsos vazios e as necessidades gritando alto em nossos ouvidos. Hoje reclamamos da chuva farta, afirmando que vamos perder a safra por causa da água que está demais. Nunca achamos um meio termo, se é que sabemos o que ele é.

Onde entra a educação nisso tudo? Essa é uma pergunta para a qual muitos têm tentado uma boa resposta, mas com pouco sucesso por causa da falta de compreensão de muitos.

Cada comunidade tem sua identidade, seu papel, seu jeito próprio de mostrar seu valor e valores. Sua gente é o retrato da organização. Quando falamos em costumes esbarramos em tradições e até na falta delas, esbarramos em tabus, preconceitos, desleixos, deformações de caráter, e tudo o mais que uma sociedade eclética possa incluir. Os papéis se distanciam quando não há estreitamento das relações entre seus membros.

Assim sendo, cabe a cada um definir o que espera do que chamamos de futuro, olhar para o passado e replanejar o futuro com base no presente. Cabe olhar ao redor e perceber o que ainda é necessário cuidar, zelar, preservar. A vida lá fora se renova todo dia. O fim de tarde não anuncia o fim de um dia somente, ele anuncia a esperança de outro dia nascer e podermos continuar nossa existência. Portanto, olhemos mais a nossa natureza, o nosso coração, a nossa comunidade. Plantemos sementes de esperança para a história que estamos escrevendo hoje não nos reserve páginas em branco amanhã.

Betania Maria de Andrade Ferreira

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